Hiperuricemia e Disbiose: A Modulação Probiótica na Prática Ortomolecular
A hiperuricemia (HUA) transcende uma simples alteração laboratorial, configurando-se como uma condição metabólica complexa associada ao distúrbio do metabolismo das purinas e ao aumento dos níveis de ácido úrico (AU). No entanto, na prática clínica, seu manejo frequentemente se limita ao contexto da gota. Além do comprometimento articular decorrente do depósito de cristais de urato, a HUA está associada a um aumento do risco cardiovascular, consolidando-se como um marcador metabólico de relevância sistêmica.
O tratamento convencional, baseado em inibidores da xantina oxidase e agentes uricosúricos, mostra-se eficaz em determinados contextos. Contudo, em cenários como a doença renal crônica (DRC) ou em pacientes com disfunção metabólica complexa, a resposta terapêutica tende a ser variável e, por vezes, insuficiente para modificar o curso da doença. Ademais, a ocorrência de efeitos adversos limita sua sustentabilidade a longo prazo.
Diante desse cenário, a prática ortomolecular propõe uma ampliação da abordagem clínica. Seria possível intervir no metabolismo do ácido úrico por meio da modulação do ecossistema intestinal? Evidências emergentes sugerem que sim. Em particular, o uso de probióticos (PB) específicos vem se consolidando como uma estratégia adjuvante com potencial impacto metabólico, imunológico e anti-inflamatório.
Uma metanálise recente avaliou o efeito da suplementação com probióticos em comparação ao placebo sobre os níveis de ácido úrico, incluindo nove estudos com um total de 394 pacientes (201 no grupo probiótico e 193 no grupo controle). De forma global, a intervenção resultou em uma redução significativa dos níveis de AU. Entretanto, ao analisar a magnitude do efeito, observou-se um tamanho de efeito médio de −2,101, com um amplo intervalo de predição de 95% (−7,510 a +3,309). Do ponto de vista clínico, isso indica que, embora os probióticos tendam a reduzir o AU em média, existe uma elevada variabilidade entre os estudos, sugerindo que os efeitos não são uniformes em todos os contextos nem com todas as intervenções. Esse achado levanta uma questão central: a resposta é dependente da cepa utilizada?
Na análise de subgrupos, os probióticos monocepa demonstraram uma redução significativa dos níveis de ácido úrico em comparação ao placebo, com tamanho de efeito de −3,682 (IC 95%: −6,046 a −1,319; p = 0,002). Esse resultado reforça um princípio fundamental da prática ortomolecular: a necessidade de selecionar cepas específicas com atividade funcional comprovada sobre o metabolismo do urato.
Do ponto de vista fisiológico, esses efeitos podem ser explicados por múltiplos mecanismos. Os probióticos modulam a expressão de transportadores de ácido úrico, como ABCG2 e GLUT9 (SLC2A9), favorecendo sua excreção no nível intestinal. Esse aspecto é de grande relevância clínica, sugerindo que o trato gastrointestinal pode atuar como uma via compensatória quando a excreção renal está comprometida. Além disso, os PB auxiliam na redução de mediadores inflamatórios, como IL-1β e lipopolissacarídeos (LPS), ambos envolvidos na inflamação crônica de baixo grau associada à HUA.
Outro aspecto clinicamente relevante refere-se às diferenças na resposta segundo o sexo. Os homens apresentaram reduções mais acentuadas nos níveis de AU em comparação às mulheres. Esse fenômeno pode ser parcialmente explicado por níveis basais mais elevados de ácido úrico, mas também pela influência hormonal, uma vez que o estrogênio modula a atividade dos transportadores de urato, podendo atenuar a resposta à intervenção probiótica em mulheres. Além disso, a menor depuração renal de AU nos homens pode potencializar o benefício de uma via alternativa de excreção mediada pelo intestino.
Indivíduos com HUA pré-existente ou com comorbidades metabólicas (obesidade, síndrome metabólica, gota ou em hemodiálise) apresentaram reduções mais pronunciadas dos níveis de ácido úrico após a suplementação com probióticos. Esse achado relaciona-se com a disbiose intestinal característica desses pacientes, marcada por menor abundância de bactérias uricolíticas e maior presença de espécies pró-inflamatórias. Nesse contexto, a intervenção probiótica atua não apenas sobre o metabolismo do AU, mas também contribui para a restauração do equilíbrio microbiano e para a melhora da função metabólica global.
Por fim, as evidências reforçam um conceito central da prática ortomolecular: a especificidade é determinante. Intervenções com probióticos monocepa demonstraram maior probabilidade de alcançar significância estatística em comparação com formulações multicepa. Esse fenômeno pode ser explicado pela bioatividade específica das cepas, pela possível competição entre microrganismos e pela variabilidade na resposta do hospedeiro. Cepas como Lactobacillus plantarum e Bifidobacterium longum foram identificadas como altamente eficientes na degradação de purinas e na promoção da excreção de ácido úrico, posicionando-se como ferramentas terapêuticas de elevado valor clínico.
Othman RB, Sassi MB, Hammamia SB, Dziri C, Zanina Y, Salem KB, Jamoussi H. Effect of Probiotics on Uric Acid Levels: Meta-Analysis with Subgroup Analysis and Meta-Regression. Nutrients. 2025;17(15):2467.