Urticária Crônica e Deficiência de Vitamina D: Implicações Terapêuticas a partir da Prática Ortomolecular
A urticária crônica (UC) é um distúrbio cutâneo inflamatório persistente, caracterizado pelo aparecimento espontâneo ou induzível de urticas, angioedema ou ambos, com duração igual ou superior a seis semanas. Além das manifestações cutâneas visíveis, os pacientes frequentemente apresentam sintomas associados, como prurido intenso, edema e alterações do sono, o que impacta de forma significativa a qualidade de vida. Diante desse cenário, no âmbito da prática ortomolecular, surge uma questão fundamental: existem fatores moduláveis capazes de influenciar a evolução inflamatória da UC, de forma complementar ao tratamento sintomático convencional?
Nos últimos anos, tem-se observado uma crescente atenção ao papel da vitamina D na regulação do sistema imunológico e suas potenciais implicações em distúrbios inflamatórios e autoimunes, incluindo a urticária crônica. Esse interesse fundamenta-se no papel da vitamina D como um modulador imunológico pleiotrópico, com efeitos observados tanto na imunidade inata quanto na adaptativa. Em nível biológico, ela auxilia na modulação das funções de células como macrófagos e neutrófilos, além de estimular a síntese de peptídeos antimicrobianos que participam da regulação da resposta inflamatória cutânea.
Esses mecanismos biológicos encontram respaldo em uma revisão sistemática recente que incluiu 11 estudos, totalizando 910 participantes diagnosticados com urticária crônica e 581 controles saudáveis. Os resultados revelaram uma associação consistente entre níveis séricos reduzidos de vitamina D e a presença de UC, sugerindo que o status subótimo dessa vitamina pode se correlacionar com o ambiente imunológico favorável à persistência da inflamação cutânea.
Dentre os estudos analisados, seis avaliaram o papel adjuvante da suplementação de vitamina D no manejo clínico da UC. De modo geral, as pesquisas indicaram que a administração de vitamina D — sob a forma de colecalciferol (vitamina D₃), ergocalciferol (vitamina D₂) ou alfacalcidol — associou-se a melhoras nos desfechos clínicos quando utilizada de forma complementar ao tratamento padrão, levantando a hipótese de uma potencialização da resposta terapêutica a anti-histamínicos ou corticosteroides em casos refratários.
Como exemplo, o ensaio de Rorie et al. (2014) observou que a suplementação com vitamina D₃ em doses de 4.000 UI/dia associou-se a um controle mais favorável dos sintomas de urticária crônica em comparação com a dose de 600 UI/dia, sugerindo uma possível relação dose-dependente, de especial relevância para indivíduos com deficiência prévia do nutriente.
Nessa mesma linha, os trabalhos de Rasool et al. (2015) e Mohamed et al. (2022) apontaram que a suplementação de vitamina D, combinada com anti-histamínicos ou corticosteroides, associou-se a melhorias clínicas adicionais e ao incremento dos níveis séricos de 25-hidroxivitamina D [25(OH)D]. Tais resultados ressaltam a importância de se avaliar o status sérico de vitamina D como parte de uma abordagem integral.
Em síntese, as evidências científicas disponíveis sugerem que a vitamina D exerce papel relevante na imunomodulação da urticária crônica, estendendo suas funções para além da homeostase óssea. O suporte com sua suplementação, particularmente em doses como 4.000 UI/dia ou 60.000 UI/semana em pacientes com deficiência prévia de 25(OH)D, associou-se a desfechos favoráveis quando integrada à conduta convencional. Esses achados corroboram o valor de uma abordagem personalizada e pautada na prática ortomolecular, incluindo o rastreio sistemático dos níveis de vitamina D no manejo clínico da UC.
Siddiqui A, Bai A, Kumar H, Mandhwani YR, Bai A, Bai P, Kumar N, Muskan FNU, Jatoi S, Ali Z, Parveen A. Chronic urticaria and vitamin D supplementations: a systematic review. Eur J Med Res. 2025;30(1):691.