O Papel da Vitamina D no Manejo do Choque Séptico

A sepse é uma síndrome inflamatória grave causada por uma resposta imunológica excessiva diante de uma infecção, capaz de desencadear disfunção orgânica e elevado risco de mortalidade. Quando essa resposta é mais severa e se acompanha de alterações circulatórias, metabólicas e celulares, ocorre a progressão para o choque séptico (CS), a forma mais crítica dentro desse espectro. Apesar dos avanços médicos, a sepse e o choque séptico continuam sendo uma das principais causas de internação e mortalidade nas unidades de terapia intensiva (UTI).

Nos últimos anos, múltiplos estudos demonstraram que, durante a sepse, são observadas deficiências plasmáticas de vitaminas, o que levou à exploração do uso de terapia vitamínica adjuvante como estratégia para auxiliar na estabilidade hemodinâmica e na redução da disfunção orgânica. A partir da prática ortomolecular, essa abordagem ganha relevância, especialmente no caso da vitamina D (VD), uma vitamina com funções imunomoduladoras fundamentais.

Diversos estudos epidemiológicos demonstraram que a deficiência de vitamina D é frequentemente identificada em pacientes críticos: estima-se que entre 79% e 98% dos pacientes em UTI apresentem níveis baixos de VD, incluindo aqueles com sepse. Além disso, observa-se uma associação entre a deficiência de VD e o maior risco de infecções, mortalidade, tempo prolongado de internação e progressão para falência orgânica.

Para avaliar esse vínculo, foi realizada uma metanálise de rede bayesiana que reuniu 36 ensaios clínicos randomizados, englobando 4.473 adultos e crianças com choque séptico.

Dez estudos avaliaram como diferentes vitaminas influenciavam os dias de internação na UTI. Na análise global, a vitamina D associou-se a um benefício mensurável: houve uma redução média de 4,6 dias no tempo de permanência na UTI em comparação com o grupo controle [DM = –4,6; IC 95%: –9,7 a –1,0]. Além disso, quando a eficácia de todas as vitaminas foi comparada entre si, a vitamina D posicionou-se como a opção mais favorável neste modelo, superando tanto o controle quanto outros tratamentos vitamínicos, com diferenças estatisticamente significativas. Esse resultado também foi corroborado pela análise SUCRA (que classifica a probabilidade de eficácia de múltiplas intervenções), na qual a vitamina D obteve a pontuação mais alta para a redução do tempo de internação na UTI.

A deficiência de vitamina D também pode alterar a composição do microbioma intestinal, o que pode impactar a resposta inflamatória na sepse. Alguns dos estudos analisados avaliaram se a combinação de vitamina D com probióticos poderia otimizar o estado clínico dos pacientes. Os resultados mostraram que a combinação de vitamina D + probióticos (VDP) reduziu significativamente a pontuação SOFA (Avaliação Sequencial de Falência Orgânica) em 24 horas, indicando uma melhora na função orgânica precoce em pacientes com choque séptico [DM = –3,0; IC 95%: –5,6 a –0,27]. Quando a VDP foi comparada com outras vitaminas ou combinações vitamínicas, ela se posicionou como a intervenção mais eficaz no modelo, superando o grupo controle e os tratamentos baseados em vitamina B, vitamina C, combinações vitamínicas e até mesmo a vitamina D isolada.

Em síntese, entre as vitaminas analisadas na pesquisa, a vitamina D demonstrou capacidade pronunciada de reduzir o tempo de permanência na UTI e o tempo total de hospitalização nos dados avaliados. Além disso, a combinação de VD com probióticos apresentou impacto positivo na redução precoce da disfunção orgânica, sugerindo que pode representar uma estratégia terapêutica adjuvante útil nas primeiras 24 horas do choque séptico.

Referência: Tian J, Long L, Li D, Liang Y, Sun G, Song W, Yue X, Shen L, Zhao H, Ren S. Effects of different vitamins on individuals with septic shock: a Bayesian NMA of RCTs. Front Nutr. 2025.

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