Efeito das enzimas digestivas na dispepsia funcional
A dispepsia é uma condição multifatorial e complexa, causada por diversos mecanismos fisiopatológicos. Dentre eles, destacam-se:
• alterações na motilidade intestinal, como retardo no esvaziamento gástrico ou acomodação insuficiente do fundo gástrico após a ingestão alimentar;
• hipersensibilidade visceral, com inflamação da mucosa gástrica e duodenal;
• e fatores genéticos, infecciosos/pós-infecciosos e psicossociais.
Essas alterações podem induzir dor abdominal episódica ou persistente, acompanhada de desconforto no trato gastrointestinal superior.
Uma das formas mais prevalentes dessa condição é a dispepsia funcional, que afeta entre 10% e 30% da população mundial. Ao contrário da dispepsia orgânica, não apresenta lesões estruturais ou ulcerativas no trato gastrointestinal, mas sim alterações funcionais que podem progredir ao longo do tempo, afetando significativamente a qualidade de vida dos indivíduos acometidos.
Entre os fatores que predispõem ao desenvolvimento da dispepsia funcional estão as infecções gastrointestinais, especialmente aquelas relacionadas ao Helicobacter pylori, bem como a exposição precoce a microrganismos ambientais, tabagismo, excesso de peso, obesidade e estados de estresse psicossocial, como ansiedade e depressão. O papel da diarreia do viajante, o uso de antibióticos e o consumo de anti-inflamatórios não esteroides também foram identificados como elementos que aumentam o risco de dispepsia.
Do ponto de vista da medicina ortomolecular, a elevada prevalência, a natureza crônica e a recorrência dos sintomas enfatizam a necessidade de explorar abordagens terapêuticas mais naturais e integrativas. As terapias farmacológicas tradicionais, embora eficazes, podem estar associadas a eventos adversos relevantes, como a toxicidade cardíaca observada no uso de agentes procinéticos e antieméticos. Nesse contexto, tem-se estudado a relação entre a deficiência ou disfunção de enzimas digestivas e o aparecimento da dispepsia. Essas enzimas, essenciais para a digestão de carboidratos, proteínas e lipídios, desempenham um papel fundamental no processo digestivo, facilitando a absorção de nutrientes.
A suplementação com enzimas digestivas apresenta-se como uma opção promissora no manejo dessa condição, por fortalecer a atividade enzimática existente e melhorar a digestão. Um ensaio clínico recente avaliou o impacto de uma mistura patenteada de enzimas digestivas em indivíduos com dispepsia funcional. O suplemento, composto por 200 mg de enzimas de amplo espectro (protease, amilase, lipase, celulase e lactase), juntamente com 95 mg de fosfato de cálcio, 95 mg de hidroxipropilmetilcelulose (HPMC) e 5 mg de dióxido de silício, foi comparado a um placebo contendo apenas excipientes inertes.
A amostra incluiu 120 participantes (63 homens e 57 mulheres), distribuídos aleatoriamente em dois grupos de igual tamanho. O grupo tratado recebeu duas cápsulas diárias, uma em cada refeição (400 mg/dia), durante dois meses, enquanto o grupo placebo seguiu o mesmo protocolo. Os resultados relacionados a sintomas e qualidade de vida foram avaliados por meio de questionários padronizados: SF-NDI (Short Form Nepean Dyspepsia Index), VAS (Escala Visual Analógica de dor) e PSQI (Pittsburgh Sleep Quality Index), com medidas realizadas no início do estudo (t0), após um mês (t1) e ao final dos dois meses (t2).
A suplementação mostrou melhorias significativas nos sintomas gastrointestinais superiores, bem como na interferência nas atividades diárias, no controle da doença, na capacidade de comer e beber e na qualidade do sono. As diferenças entre os escores do NDI-SF-1 do grupo tratado e do grupo placebo ao final do tratamento foram estatisticamente significativas (β = 7,1 ± 3,3; t347 = 2,100; P = 0,036), indicando uma melhora notável nas condições dos sujeitos tratados.
A avaliação da dor pela escala VAS também demonstrou diferenças significativas entre os grupos. Em t0, o grupo tratado apresentou uma pontuação significativamente maior que o placebo (β = 0,7 ± 0,4; t333 = 2,097; P = 0,037), enquanto em t2 a pontuação foi significativamente menor (β = −1,5 ± 0,4; t333 = 4,211; P < 0,001), demonstrando redução da dor. Além disso, no escore VAS, as mulheres apresentaram valores significativamente maiores que os homens (β = 1,0 ± 0,3; t337 = 3,261; P = 0,0012).
Quanto ao sono, avaliado pelo questionário PSQI (19 itens), os resultados mostraram que o grupo tratado obteve pontuações significativamente mais baixas que o placebo desde o início (t0: β = 2,1 ± 0,4; t311 = 4,737; P < 0,001), com diferenças crescentes em t1 (β = 6,1 ± 0,4; t311 = 13,38; P < 0,001) e ainda mais acentuadas em t2 (β = 6,6 ± 0,4; t311 = 14,55; P < 0,001). Esses dados reforçam a relação entre a qualidade do sono e os sintomas dispépticos, embora ainda não esteja claro se o sono deficiente funciona como fator desencadeante dos distúrbios gastrointestinais ou se, ao contrário, é uma consequência deles. Ambas as hipóteses podem estar corretas, considerando que o sono de baixa qualidade pode agravar os sintomas dispépticos, influenciando negativamente as escolhas alimentares e os horários das refeições, enquanto a própria dispepsia poderia afetar o sistema circadiano, comprometendo a qualidade do sono.
Em resumo, este estudo demonstrou melhora nos sintomas gastrointestinais e leve melhora na qualidade de vida em pacientes com dispepsia funcional. Além disso, foram observadas diferenças de gênero, possivelmente associadas a fatores biológicos, como os hormônios sexuais, que influenciam a motilidade intestinal ou o processamento da dor visceral no sistema nervoso central, bem como a comportamentos de saúde específicos de cada sexo.
👉 Estudo completo: https://doi.org/10.1016/j.biopha.2023.115858
Referência: Hammad Ullah, Alessandro Di Minno, Roberto Piccinocchi, Daniele Giuseppe Buccato, Lorenza Francesca De Lellis, Alessandra Baldi, Hesham R. El-Seedi, Shaden A.M. Khalifa, Gaetano Piccinocchi, Xiang Xiao, Roberto Sacchi, Maria Daglia. Efficacy of digestive enzyme supplementation in functional dyspepsia: A monocentric, randomized, double-blind, placebo-controlled, clinical trial, Biomedicine & Pharmacotherapy, Volume 169, 2023, 115858.