A suplementação com vitaminas do complexo B pode impedir o declínio cognitivo em idosos?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, devido ao envelhecimento populacional e ao aumento da longevidade, o número de idosos vivendo com demência aumentará de 46 milhões em 2015 para 152 milhões em 2050.

A doença de Alzheimer, em particular, está associada ao estresse oxidativo, no qual as espécies reativas de oxigênio (ROS) desempenham um papel relevante no dano neuronal. Nesse contexto, a prática ortomolecular investiga o papel de determinados nutrientes na proteção contra os danos oxidativos, com ênfase nas vitaminas. Essas substâncias atuam na neutralização dos radicais livres devido às suas propriedades antioxidantes e influenciam mecanismos fisiológicos essenciais para a saúde neuronal.

Especificamente, a tiamina (vitamina B1) tem papel fundamental no metabolismo cerebral da glicose, um processo essencial para a função neuronal. Por outro lado, baixos níveis de cobalamina (vitamina B12) têm sido associados a alterações neurocognitivas, o que destaca a importância da manutenção adequada desses micronutrientes para a saúde cerebral.

Uma revisão narrativa publicada em 2024 analisou dados das últimas duas décadas, incluindo doze ensaios clínicos randomizados com 2.935 participantes idosos. Um desses estudos indicou que a suplementação com vitaminas B redutoras de homocisteína, ao longo de dois anos, esteve associada a uma redução da atrofia cerebral acelerada em idosos com comprometimento cognitivo leve (MCI). Os participantes que receberam 0,8 mg de ácido fólico (B9), 0,5 mg de cianocobalamina (B12) e 20 mg de cloridrato de piridoxina (B6) apresentaram uma taxa anual de atrofia cerebral de 0,76%, inferior aos 1,08% observados no grupo placebo (p = 0,001). Esse efeito foi mais pronunciado em indivíduos com níveis basais de homocisteína superiores a 13 µmol/L, nos quais a taxa de atrofia cerebral foi reduzida em 53% em comparação ao placebo. Essa menor atrofia cerebral correlacionou-se com um melhor desempenho em testes cognitivos, sugerindo um potencial efeito protetor da suplementação com vitaminas do complexo B em subgrupos específicos.

Outro ensaio clínico, conduzido com 68 idosos com DCL, investigou a influência combinada da suplementação de vitaminas do complexo B e dos níveis plasmáticos de ácidos graxos ômega-3 (ω-3). Os resultados mostraram que, entre participantes com níveis elevados de ω-3 (>590 μmol/L), a suplementação de vitamina B reduziu a taxa de atrofia cerebral em 40% em relação ao placebo (p = 0,023). No entanto, esse efeito não foi observado em indivíduos com baixos níveis de ω-3 (<390 μmol/L), destacando a interação potencialmente relevante entre esses nutrientes. Ademais, os efeitos foram mais evidentes em participantes que não faziam uso de aspirina e que apresentavam concentrações mais elevadas de ácidos graxos ω-3, reforçando a importância de abordagens nutricionais personalizadas para otimizar os resultados clínicos.

Embora alguns estudos indiquem que a suplementação com vitaminas do complexo B pode estar associada à redução da atrofia cerebral em determinados contextos, as evidências ainda são limitadas e sugerem que os benefícios podem depender de fatores individuais, como níveis de ácidos graxos ω-3 e variações genéticas. Mais pesquisas são necessárias para esclarecer os mecanismos envolvidos e definir protocolos clínicos para a utilização dessas vitaminas na prevenção do declínio cognitivo.

Referências:

Fu Q, DeJager J, Gardner EM. Supplementation and Mitigating Cognitive Decline in Older Adults With or Without Mild Cognitive Impairment or Dementia: A Systematic Review. Nutrients. 2024 Oct 21;16(20):3567. doi: 10.3390/nu16203567. PMID: 39458561; PMCID: PMC11509913

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11509913/

Pós-graduações: (11) 93144-9628 Secretaria: (11) 94626-1560