Papel da Creatina no Eixo Músculo-Cérebro
O envelhecimento é acompanhado por um declínio progressivo tanto na função física quanto na cognitiva. Nesse processo, a baixa massa muscular tem sido associada a um risco aumentado de declínio cognitivo, particularmente em domínios como a função executiva. Essas descobertas destacam a importância do eixo músculo-cérebro, onde a desregulação metabólica e a disfunção progressiva da junção neuromuscular atuam como fatores-chave na perda funcional relacionada à idade.
Dentro desse eixo, a creatina ocupa um lugar especial de interesse. Sabe-se que seus níveis corporais diminuem com o envelhecimento devido à menor ingestão alimentar, à redução da capacidade de síntese endógena, à perda de massa muscular — o principal reservatório de creatina — e ao sedentarismo. Embora a creatina possa ser obtida de alimentos como carne, peixe, moluscos e laticínios, ela também é sintetizada nos rins e no fígado a partir da arginina e da glicina. No entanto, o declínio progressivo das reservas com a idade tem motivado a busca por estratégias de prática ortomolecular que contribuam tanto para a preservação da massa muscular quanto para a proteção da função cognitiva.
Nesse sentido, a suplementação de creatina apresenta-se como uma ferramenta sob investigação promissora. Evidências documentam que ela pode atenuar os efeitos do envelhecimento sobre os músculos e ossos em idosos, especialmente quando combinada com treinamento de resistência. Vale ressaltar que aproximadamente 95% da creatina corporal é armazenada no músculo esquelético e apenas cerca de 5% no cérebro, sugerindo que doses específicas podem ser necessárias para atravessar a barreira hematoencefálica e elevar os níveis cerebrais.
Uma revisão sistemática recente incluiu seis estudos com um total de 1.542 participantes (55,7% mulheres), com idades médias variando de 66,8 a 76,4 anos. Dois deles eram ensaios clínicos duplo-cegos de intervenção, incluindo um ECR, que administraram suplementos de monoidrato de creatina em diferentes regimes. Por exemplo, no estudo de Alves et al., os participantes foram designados para placebo, creatina, placebo + treinamento de força ou creatina + treinamento de força, com uma fase de carga de 4 × 5 g/dia por cinco dias, seguida de 5 g/dia por 24 semanas.
Em contraste, McMorris et al. utilizaram um delineamento cruzado com fases alternadas de placebo e creatina, administrando 4 × 5 g/dia de carboidratos ou creatina, dependendo do momento do ensaio. Os outros quatro estudos foram transversais, avaliando a ingestão alimentar de creatina e sua relação com a função cognitiva por meio da recordação alimentar.
No geral, cinco dos seis estudos (83,3%) relataram efeitos positivos da creatina na cognição. Dois estudos observaram que participantes com maior ingestão alimentar apresentaram respostas mais rápidas e precisas em tarefas cognitivas. Outro estudo identificou uma associação positiva entre uma ingestão superior a 0,382 g/dia e melhor desempenho na memória visoespacial de curto prazo, enquanto outro encontrou uma correlação entre ingestões superiores a 0,95 g/dia e melhores resultados no teste de substituição símbolo-dígito.
Em relação aos ensaios de intervenção, McMorris et al. relataram melhorias na memória espacial, na recordação de números e na memória de longo prazo após a suplementação. Em resumo, as evidências atuais sugerem uma associação positiva entre a creatina e parâmetros de cognição, particularmente na memória e atenção em adultos mais velhos.
Referência: Marshall S, Kitzan A, Wright J, Bocicariu L, Nagamatsu LS. Creatine and Cognition in Aging: A Systematic Review of Evidence in Older Adults. Nutr Rev. 2025.